18/09/2012 07h00 – Atualizado em 18/09/2012 07h00

Estudantes criam carro elétrico para o transporte de peças em montadora

Na fábrica da VW, no Paraná, estagiários fazem projetos usados na empresa.
Relação entre estudantes e empresas não é mais só para ‘carregar papel’.

Samuel NunesDo G1 PR

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Tecnologia desenvolvida pelos estudantes é mais barata que a atual (Foto: Samuel Nunes/G1)Tecnologia desenvolvida pelos estudantes é mais barata que a atual (Foto: Samuel Nunes/G1)

Programas de estágio em grandes empresas atraem cada vez mais candidatos que buscam, além de uma oportunidade para entrar no mercado de trabalho, a chance de desenvolver as habilidades aprendidas nas salas de universidades. Na unidade da Volkswagen, em São José dos Pinhais, no Paraná, além de colocar em prática os conhecimentos acadêmicos, os estagiários desenvolvem projetos que, mais tarde, são usados pela montadora.

O caso mais recente de um projeto desenvolvido por estudantes é o do veículo auto guiado (AVG, na sigla em inglês), construído por estagiários da área de engenharia. O equipamento, que serve para carregar peças, por toda a linha de montagem, já era utilizado na empresa. Porém, os estagiários desenvolveram uma nova tecnologia que pode reduzir tanto os custos de instalação, quanto de manutenção do equipamento.

De acordo com o gerente de montagem, José Henrique Silva, o aparelho antigo causava um grande transtorno para ser instalado. “Era preciso fazer toda uma obra na fábrica, parar a linha de montagem e gerava altos custos”, explica. Segundo ele, o equipamento antigo funciona com uma chapa de metal, que é instalada ao longo do trajeto por onde o AVG passa. O carrinho possui um sensor que reconhece essa chapa e segue o caminho, como se fosse um trilho de trem.

O projeto dos estagiários elimina a necessidade de se instalar esse trilho. Conforme explica Ednilson Andolhe Filho, um dos estagiários que participou do desenvolvimento do AVG, a tecnologia que eles desenvolveram é capaz de identificar uma faixa pintada no chão da fábrica, utilizando qualquer tinta. Dessa forma, se for preciso alterar o trajeto, basta apagar a antiga e pintar uma nova.

Outra mudança em relação à tecnologia antiga é a melhora na eficiência energética do aparelho, que é elétrico e funciona a bateria. Os estagiários fizeram um programa que pode, à distância, monitorar a quantidade de carga disponível, usando mensagens de texto enviadas para computadores e celulares. “As baterias antigas podiam ser recarregadas até 80 vezes, com essa melhora energética, elas agora podem ser carregadas até 200 vezes”, diz Ednilson.

AVG atual necessita de obra civil para ser instalado (Foto: Samuel Nunes/G1)AVG atual necessita de obra civil para ser instalado
(Foto: Samuel Nunes/G1)

Estágio não é para carregar papel
A coordenadora do programa PUC Talentos, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Daniella Forster, explica que programas como o da Volkswagen são uma nova realidade no mercado. Para ela, a nova Lei de Estágios, em vigor desde 2008, mudou o relacionamento entre empresas e estudantes. “Tem diminuído bastante os relatos de estagiários que são contratados e acabam fazendo serviços administrativos, como cópias”, diz.

No caso da PUCPR, o programa coordenado pela professora Daniella não só ajuda os estudantes a conseguir vagas no mercado, como também os acompanha durante o período do contrato. “Existe todo um acompanhamento. A partir de um plano de estágio, é possível avaliar se as atividades desenvolvidas têm caráter pedagógico ou não”, explica.

Ednilson, que estuda engenharia ambiental, considera que o estágio que conseguiu foi importante para aplicar não só os conhecimentos específicos que estudou, mas também para conhecer outras áreas em que poderá atuar depois de formado. “Apesar de estudar a área ambiental, pude trabalhar com robótica, algo que nunca havia imaginado na minha carreira”, revela. Durante o projeto do AVG, o estudante foi selecionado como chefe do grupo que empreendeu a criação do carro.

A coordenadora de Recursos Humanos daVolkswagen, Luciana Partel, afirma que todo o processo para a criação do AVG, bem como das outras atividades dos estagiários, é acompanhado por técnicos da empresa. “O projeto foi deles [estagiários], mas todo o suporte técnico para colocá-lo em prática foi acompanhado pelos nossos técnicos”, diz.

O sucesso do programa de estágio é mostrado nos números de procura dos estudantes. No último processo de seleção, cujas inscrições se encerraram recentemente, mais de 28 mil universitários se candidataram para as 70 vagas disponíveis em todas as plantas fabris do Brasil. Ao todo, são 400 candidatos por vaga, sete vezes mais que o registrado no Vestibular 2012 da Fuvest, para o curso de Engenharia Civil, da Universidade de São Paulo (USP).

Conforme a professora Daniella, as empresas também têm ido às universidades para buscar novos talentos. Ao longo do ano, diversos eventos são organizados pela PUC-PR, com o objetivo de abrir as portas acadêmicas às empresas. Nesses eventos, as empresas montam estandes, mostram as oportunidades e acabam atraindo os profissionais. “No nosso último evento, realizado em agosto, a Volkswagen foi uma das empresas que estiveram presentes”, conta.

Acho que o mercado busca por profissionais que possam atuar de várias maneiras dentro das empresas.”
Ednilson Andolhe Filho, estudante de Engenharia Ambiental

Retorno mútuo
Todos os lados envolvidos no processo – estudante, empresa e universidade – relatam que o retorno que obtêm na relação de estágio é positivo. Luciana conta que há muitos casos de estudantes que trazem da academia conhecimentos que, muitas vezes, melhoram os processos internos. “Às vezes, o funcionário está acostumado a fazer o serviço de um jeito e o estagiário sugere uma forma nova, que pode ser melhor que a antiga. Quando isso acontece, melhora a qualidade do trabalho”, diz.

Já a coordenadora da PUCPR considera que o retorno para a universidade vem de duas formas. “Há uma melhora no rendimento dos alunos. Além disso, tem uma troca de conhecimentos que eles levam da empresa para a academia”, pontua Daniella.

Ednilson avalia que, no lado do futuro profissional, a oportunidade de adquirir mais conhecimentos é o que mais atrai os estudantes. “Acho que o mercado busca por profissionais que possam atuar de várias maneiras dentro das empresas”, avalia.

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